ENTREVISTA: Camila Villada fala sobre sua carreira e o papel do teatro como agente libertador
(Crédito: Divulgação FILO 2012)
A história de três mulheres que romperam tabus e lutaram contra preconceitos para poder brilhar nos palcos, apesar de todas as discriminações das quais foram vítimas. A atriz argentina Camila Sosa Villada, 30 anos, conta a história da cantora norte-americana Billie Holiday e da atriz e cantora argentina Tita Merello, fazendo um paralelo com sua própria trajetória. Personagem de si mesma no espetáculo “Llórame un Río”, Camila narra na montagem apresentada no FILO 2012 os desafios que teve de superar para conquistar os palcos e telas na condição de um travesti. Mas o faz sem dramas, tudo muito bem resolvido.
Camila nasceu Cristian. Mas aos 16 anos começou a se travestir. Aí se inicia a luta pelo respeito e reconhecimento como pessoa, como artista. No espetáculo, Camila conta, inclusive, como foi chantageada por três policiais que a encontraram caminhando vestida de mulher pelas ruas de Mina Clavero, pequena cidade onde passou boa parte de sua infância e adolescência até voltar para sua cidade natal, Córdoba. “O espetáculo é autobiográfico. Mesclo minhas histórias com as dessas duas mulheres, de quem sou admiradora, tanto pelo trabalho artístico quanto pela vida pessoal marcada pela superação”, comenta.
Ela reconhece que teve a sorte de nascer na Argentina, país onde os homossexuais têm seus direitos assegurados. “A Argentina deveria servir de exemplo para os outros países da América Latina, onde o machismo ainda é muito forte e os direitos humanos não são completamente respeitados”, comenta. Camila observa que uma lei argentina recente assegura aos travestis o direito de mudar os documentos, permitindo assim assumir a nova identidade.
Na opinião da atriz, a falta de respeito à pluralidade e às diferenças não afeta apenas aos homossexuais, mas também, em forte medida, às mulheres. “Ainda existem muitos preconceitos. Mulheres, por exemplo, ocupando um mesmo cargo recebem salários menores do que homens”, pontua.
Para ela, o teatro e as artes de forma em geral têm “obrigação” de colocar o tema da discriminação e do respeito à pluralidade em foco. “Um travesti como protagonista de uma obra de teatro é uma maneira de promover mudanças”, comenta. “Llórame un Río”, trabalho que lhe valeu prêmios de melhor atriz na Argentina, não foi o primeiro em que ela se coloca em cena para contar sua própria história.
No espetáculo “Carnes Tolendas”, de 2009, que também teve direção de María Palacios, Camila cruza seus caminhos com os de personagens femininos do universo do dramaturgo espanhol Federico García Lorca, como Yerma e Bernarda Alba.
Ela também protagonizou o filme “Mía”, que conta a história de um travesti. Sua vida foi contada ainda no ciclo Biodrama, projeto desenvolvido pela diretora Vivi Tellas, em que vários artistas argentinos relatam suas próprias experiências.
Depois do FILO, Camila viajou de volta a Buenos Aires para iniciar as gravações de uma minissérie para a televisão argentina, que estreia em outubro.
Paralelo aos trabalhos como atriz, Camila mantém uma carreira como cantora de jazz, em um duo com o pianista Antu Honik. Faceta que o público que acompanhou as apresentações de “Llórame un Río” pode desfrutar ao ouvir sua bela voz interpretando canções imortalizadas por Billie Holiday.
Guto Rocha