Maricel Alvarez, de “Dolor Exquisito”, fala sobre carreira e o papel da mulher no teatro
(Divulgação FILO 2012)
Ao contar a história da perda de um grande amor no espetáculo “Dolor Exquisito”, apresentado no FILO 2012 (última apresentação na quarta, dia 20, às 21 horas, no Teatro FILO), a atriz argentina Maricel Alvarez transita da mais profunda tristeza, regada a lágrimas, à indiferença irônica com o homem que a abandonou. O domínio da emoção em cena revela a maturidade artística atingida por Maricel. Este trabalho lhe valeu a participação, ao lado do ator Javier Bardem, do aclamado filme “Biutiful”, do diretor mexicano Alejandro Iñárritu, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro de 2011.
Maricel conta, em entrevista à Assessoria de Imprensa FILO, que o diretor de casting do filme assistiu a uma apresentação de “Dolor Exquisito” em Buenos Aires, e após o espetáculo convidou-a para fazer um teste. “Trabalhar em ‘Biutiful’ foi uma das experiências que mais contribuíram para o meu aprendizado em cinema. Além de ter sido um papel difícil, a linguagem cinematográfica é um desafio para o ator que vem do teatro”, comenta. Ela aprendeu bem. Só neste ano, estreia dois filmes na Argentina: “Tierra de los Padres”, de Nícolas Prividera; e “Todo lo que Necesita es Amor”, de Gabriel Nesci.
Ela observa que, nos palcos, o artista é o dono da situação, tem maior domínio sobre a cena e depende menos dos outros. “No teatro, a relação do ator com trabalho é muito mais orgânica. Já no cinema a técnica exigida é mais rigorosa, além do tempo ser diferente e de dividirmos o set com uma equipe numerosa de profissionais”, diz.
Nascida em Buenos Aires, Maricel conta que iniciou seus estudos em teatro e dança contemporânea em 1989, em cursos e oficinas com diversos diretores da cena portenha. Sua estreia nos palcos foi em 1995. Desde então, participou como atriz de inúmeras montagens, além de coreografar espetáculos de dança, ministrar oficinas e dar aulas de interpretação na Argentina e outros países.
“Sou o que sou graças a todas as atividades que venho realizando ao mesmo tempo desde o início de minha carreira. Tem que ser muito afortunado para conseguir viver apenas do trabalho de ator. Mesmo que tivesse esta chance, minha natureza não me permitiria ficar em uma só atividade”, afirma.
Maricel diz que se sente privilegiada por ter ingressado na vida artística em um momento em que a Argentina vivia os primeiros anos de seu processo de redemocratização, iniciado em 1983. Neste período, observa ela, o teatro florescia de maneira pujante, sobretudo a cena independente e experimental. “Estudei com grandes mestres durante minha formação e, depois, tive a oportunidade de trabalhar com eles”, relembra.
Neste mesmo período, as mulheres passaram a ter maior visibilidade no fazer teatral argentino. Ela observa que antes da abertura, além de atrizes, as funções que eram relegadas ao universo feminino estavam mais ligadas a cenografia e figurino. “Desde a redemocratização, muitas mulheres passaram a se destacar também na direção e na dramaturgia”, afirma.
Para ela, esta liberdade proporcionou ainda a entrada de artistas que estavam à margem do processo criativo em seu país. “Não é uma discussão sexista, de querer comparar homens e mulheres, mas sim o que isso trouxe de diversidade para a produção artística. Esse cruzamento de pessoas de diferentes sexos, classes sociais e níveis culturais contribui muito para abrir novas percepções do mundo”, analisa.
Entrevista a Guto Rocha