PONTO DE VISTA: FILO traz a Londrina “O Jardim”, uma das produções mais aclamadas do último ano
Crédito/foto: Divulgação FILO 2012
Na edição em que celebra a memória, o Festival Internacional de Londrina não poderia encerrar sua programação artística com espetáculo mais emblemático. O protagonista de “O Jardim” – em cartaz ainda neste sábado (30) às 18 e 21h30 no Teatro FILO – é o tempo. Mais especificamente, o tempo percorrendo os veios de uma casa, a casa do jardim. Ela (e os objetos que contém) é a principal sobrevivente de uma história que engoliu gerações de moradores da mesma família.
Tão perecíveis são as pessoas. Elas (e os sonhos que contêm). Mágico, o teatro repõe sobre o gramado verde personagens que o tempo varreu do mundo. Lá estão eles, buscando a superfície da história, ainda que soterrados por escombros de caixas. Algumas anotações no papelão mostram que elas guardam os pertences da família na marcha que a vida impõe: um casal que se separa, o pai que as filhas levam para o asilo, quinquilharias do imóvel, que será desapropriado. Pouco a pouco, os objetos saem das caixas e, sob a luz dos refletores, o espanto – eles são nossos.
Um pulôver do pai, o rosário da mãe, um espelho que refletiu outras faces, mais jovens. São objetos familiares, como familiares são as falas, os gestos, o discurso das personagens. Nisto reside uma das proezas de “O Jardim”: o fato de narrar histórias tão prosaicas e simples dentro de uma estrutura cênica extremamente complexa. Ponto para a direção de Leonardo Moreira, que se mostra um genial maestro não só da cena, mas também dos atores.
Cada integrante do elenco dá para as personagens os seus próprios nomes. São atores-criadores. Ao longo do processo, eles vasculharam as suas memórias e levaram para o palco depoimentos e objetos pessoais, que se associam ao material de pesquisa coletado em entrevistas junto a lares de idosos e grupos de terceira idade. O que surge dessa fusão é um interessante jogo entre ficção e realidade.
A transmutação da vida em arte realiza-se do modo como deve ser: universalizando os temas. O diretor, em entrevista, revela fragmentos biográficos que vemos diluídos em cena. A perda do pai, uma separação amorosa, a casa onde passou toda a infância. Ele conta que o imóvel onde morou até os 18 anos era um antigo hotel no sul de Minas Gerais. As paredes, com fendas e marcas, sempre fomentaram a imaginação do jovem artista na suposição dos hospedes que por ali passaram.
A dramaturgia de “O Jardim” rendeu a Leonardo Moreira o prêmio Shell 2012, na categoria Autor. O lirismo é a tônica de um texto que conjuga a estrutura dramática convencional com reflexões lançadas à plateia. Surge, entretanto, uma poesia maior, da própria cena, quando as vozes sobrepõem-se e os corpos lembram partituras já realizadas anteriormente. A montagem brinca com a memória do espectador, já que a trama é apresentada em fragmentos. A forma, pois, espelha o conteúdo.
As paredes de caixas separam em três partes o público, o elenco e a saga familiar. As cenas se passam em 1938, 1979 e 2012. Passam-se ao mesmo tempo. Por entre as frestas de papelão, ouvimos, com as personagens, as pistas sonoras dos vizinhos – um jogo que incita a curiosidade, mas, sobretudo, revela que o inferno dos outros somos nós. O público compõe, com esses pedaços de informações, uma história íntegra. Preenche os dados vácuos com a própria história. Participa, assim, biograficamente, tanto quanto o elenco.
Alguns questionamentos que “O Jardim” propõe são, porém, insolúveis. Por trás do que chamamos acaso, vai surgindo uma ordem oculta no caos. O caminho que objetos e personagens trilham ao longo de quase 80 anos é tortuoso, irônico (como a vida). Sempre o mesmo conflito: a memória, “eterna memória”, em duelo com o esquecimento - esse longo capítulo da história que precisamos escrever.
(Renato Forin Jr.)