Em “O Jardim”, Cia Hiato explora quebra-cabeça da memória em história familiar que perpassa gerações
O diretor e dramaturgo Leonardo Moreira (Crédito/foto: Divulgação FILO 2012)
Sobre o jardim de uma casa, o tempo vai revolvendo emoções. E lá estão os integrantes de uma família a encaixotar objetos que sobrevivem às gerações. Na incensada montagem “O Jardim” - que o FILO apresenta nos dias 28 e 29 (às 21 horas), e dia 30 de junho (às 18h e 21h30), no teatro FILO (R. Cuiabá, 39) - o público é levado a compor uma história que lhe é dada em fragmentos.
No cenário, paredes e mais paredes com centenas de caixas de papelão são deslocadas pelos personagens para a criação de barreiras físicas que dividem o palco em três setores, o público em três grupos e a trama em três momentos.
Em cena, os limites entre ficção e realidade, porém, são mais tênues que a espessura das divisórias. Ao longo do processo, que durou treze meses, o dramaturgo e diretor Leonardo Moreira, juntamente com o elenco, vasculhou o próprio passado e trouxe para o palco elementos biográficos. “O espetáculo foi ensaiado com as caixas da minha própria separação”, confessa Leonardo, que, no começo da montagem, terminara um relacionamento. Na época, alguns integrantes do elenco passavam pela mesma experiência.
Por este aspecto confessional, os personagens da trama recebem o mesmo nome dos atores e acabam colocando suas próprias lembranças em cena por meio de gravações, fotografias e objetos. “A especificidade do teatro é o fato de ser real. O espectador e o ator estão compartilhando um momento real. Em ‘O Jardim’, a gente transformou realidade em ficção”, explica Leonardo.
Além de vasculhar memórias pessoais, a Cia. Hiato realizou uma série de visitas em asilos e lares de terceira idade. Nestes locais, o grupo fazia aos idosos três perguntas: que memórias eles queriam esquecer; que momento da vida eles mais lembravam e, por último, quais memórias inventadas gostariam de ter. Ao longo das entrevistas, muitos citavam a separação como uma dor digna de esquecimento e evocavam os filhos como uma reminiscência agradável.
A partir daí, a Cia. Hiato fez nascer uma dramaturgia inédita, que garantiu a Leonardo Moreira o Prêmio Shell de melhor autor. As narrativas fragmentam-se: na década de 30, Thiago e Fernanda compram uma casa, mas estão em processo de separação. No final dos anos 70, as duas filhas levam Thiago para o asilo. Na atualidade, a sua neta, na companhia de uma empregada, vasculha a velha casa, agora vazia, e grava um vídeo como última memória do imóvel.
As caixas perpassam os três instantes da história familiar. “Elas são um símbolo das experiências guardadas”, explica o diretor. Inicialmente, as caixas armazenam os objetos da separação; depois, embalam a mudança do pai rumo ao asilo e, por último, abrigam antigos resquícios das gerações anteriores. Segundo Leonardo Moreira, a resposta do público é muito emocional – “a passagem do tempo é uma experiência coletiva. Isso gera identificação”.
A fragmentação é uma forma de traduzir as questões relacionadas à memória também na estrutura formal da montagem. As barreiras de caixas fazem com que o público veja, de início, as três cenas parcialmente e construa pouco a pouco a integridade narrativa. “Lidamos também com as memórias do espectador. Nenhuma deixa do espetáculo acontece na mesma cena, mas está em outra”, comenta Moreira.
“O Jardim” estreou em maio de 2011 e é o quarto espetáculo da Companhia paulistana. Desde então, recebeu vários prêmios e cumpriu temporada em São Paulo e no Rio de Janeiro, além de ter excursionado por várias cidades.
(Renato Forin Jr.)
O JARDIM
Cia. Hiato – São Pauo
Data: 28 e 29 de junho
Horário: 21h
Data: 30 de junho
Horários: 18h e 21h30 (duas sessões)
Local: Teatro FILO (Rua Cuiabá, 39)
Duração: 90 minutos
Classificação Indicativa: adulto
Gênero: Teatro
FICHA TECNICA:
Dramaturgia e direção: Leonardo Moreira
Elenco: Aline Filócomo, Fernanda Stefanski, Luciana Paes, Maria Amélia Farah, Paula Picarelli e Thiago Amaral
Ator convidado: Edison Simão
Cenário: Marisa Bentivegna
Assistente de cenografia: Ayelén Gastaldi
Desenho de luz: Marisa Bentivegna
Operação de luz: Ayelén Gastaldi
Musica Original: Marcelo Pellegrini
Figurinos: Theodoro Cochrane
Assistência de Direção: Amanda Lyra
Fotos e vídeos: Otavio Dantas
Criação Gráfica: Cassiano Tosta – DGRAUS
Coordenadora de Produção e Gestão: Aura Cunha e João Victor D’Alves
Realização: Cia. Hiato
Serviço:
Festival Internacional de Londrina - De 8 a 30 de junho
Realização: Associação dos Amigos da Educação e Cultura Norte do Paraná (Àmen) e Universidade Estadual de Londrina
Patrocínio: Petrobras, Governo Federal / Ministério da Cultura / Lei de Incentivo à Cultura, Prefeitura de Londrina / Secretaria Municipal da Cultura / Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic), Caixa Econômica Federal, Copel/ Governo do Estado do Paraná e Unimed Londrina.
Informações: (43) 3344-3386 ou 3324-9202. Bilheteria: 3322-2689. www.filo.art.br.