Palco com cara de rua no encerramento do FILO

Grupo de Rua, de Niterói, encerra neste domingo (27) o Festival Internacional de Londrina com dança que revê elementos do hip hop
Espetáculo relacionado: 
H3
Fonte: 
Renato Forin Jr/ Assessoria de imprensa FILO
"H3" - Grupo de Rua (Niterói) - Foto: Divulgação
"H3" - Grupo de Rua (Niterói) - Foto: Divulgação

O linóleo do tablado quase lembra o asfalto molhado dos becos da cidade quando os integrantes do Grupo de Rua (Niterói – RJ) entram em cena. No espetáculo “H3†tudo – movimentos, figurinos, sonoridades - faz referência ao street, mas o que se propõe é justamente a revisão reflexiva da dança de rua a partir do espírito ousado e questionador do coreógrafo Bruno Beltrão. “Ficamos grudados no hip hop, mas negando o tempo inteiroâ€, resume ele. “H3†é a atração de fechamento do FILO 2010 e terá apresentação única neste domingo (27 de junho), às 20h30, no Teatro Ouro Verde.
Nove bailarinos alternam-se em vibrantes passagens de cena. Ora individualmente, ora em duos ou trios, eles aceleram na contra-mão. Numa demonstração de habilidade psico-motora, realizam rápidas corridas de costas e lançam-se, não menos que de repente, em movimentos que remetem imediatamente ao hip hop. Lá estão – elegantemente estilizados – os giros concêntricos, as paradas de mão, os impulsos laterais e traseiros, a sinuosidade concreta dos braços, o potencial de deslocamento, os duelos entre os dançarinos.
Bruno Beltrão incorpora o vocabulário da dança de rua numa contextura inovadora. Os clichês do estilo - tantas vezes imutável na tradição e na propagação cotidiana do hip hop - são colocados à prova por meio de uma coreografia na qual explodem movimentos impulsivos. “Sempre soube que, por mal ou bem, desde o início, era necessário fazer alguma coisa nossa e não simplesmente repetir a receita, que, aliás, é uma técnica incrível. Mas eu prefiro importar a idéia de que o teatro é o lugar onde se vai para frenteâ€, pontua o diretor.
O coreógrafo diz que a formatação da linguagem se deu, desde o início do Grupo de Rua, a partir de uma experimentação do corpo, dentro da técnica do hip hop, mas com a redução de elementos como a música, a velocidade e a repetição. De início, um trabalho tão revolucionário acabava sendo alvo de preconceitos não só de tradicionalistas do gênero de rua, como também dos radicais da dança contemporânea.
Após experimentações mais ortodoxas, “H3†nasce, dentro da trajetória da trupe, como um ponto ótimo de equilíbrio entre a técnica e a inovação. “Agora, no ‘H3’, já estou ouvindo de gente do hip hop olhando para nosso trabalho com olhos mais generososâ€, expõe Bruno Beltrão.
Ele identifica que a mudança no formato dos espetáculos do Grupo de Rua, desde 2001, sobretudo com a aceleração dos movimentos e com performances menos silenciosas, vem promovendo uma maior aceitação de um público jovem, tendo em vista que a faixa etária de suas platéias, geralmente, transita entre 35 e 50 anos.

Dramaturgia abstrata


Mais agressivo que o anterior “H2†– mas considerado uma continuação deste - a montagem apresentada no FILO ganha na verticalidade e nos saltos. De acordo com Bruno Beltrão, “H3†vai num crescendo, e, não expondo uma relação tão frontal com o palco, apresenta focos de atenção mais localizados – o que é uma recorrência ao clássico.
O percurso, porém, rompe com o figurativo. “Sem dúvida, existe na peça uma dramaturgia, que é a escolha do que colocar lado a lado e qual é a coerência. Mas ela é absolutamente abstrata, não tem porque buscar significados nos gestosâ€, explica o diretor.
O elenco formado exclusivamente por homens veste figurinos neutros e de modelagens bem adequadas ao movimento das ruas. Eles transitam por um palco nu, com um linóleo reflexivo que, ao toque da luz, lembra um “lago negroâ€, onde os bailarinos se refletem.
A música, pela primeira vez inédita numa montagem do grupo, é composta sobretudo pela mescla de sons eletrônicos (influências de jazz) com ruídos de carros e pessoas - o que lembra o espaço dos ensaios. “A gente queria, explica Bruno, transpor esse ambiente que a gente encontrou no estúdio, ensaiando nove horas por dia, durante quatro mesesâ€.
O contato entre os bailarinos é marcante em “H3†e se presta, sobretudo, à quebra dos tabus. Para o coreógrafo, “há um individualismo exacerbado no hip hop, a técnica se estabelece a partir dessa opção; os movimentos não podem ser feitos com outro, são até perigosos de se fazer juntosâ€. O caminho foi justamente romper com esse pensamento “machistaâ€, e acatar o desafio de promover instantes em que, quando o toque não se dá, a proximidade se faz quase como um risco, pela potência da explosão.

O grupo


O Grupo de Rua nasceu em Niterói em 1996 pela iniciativa de Rodrigo Bernardi e Bruno Beltrão. Ao longo dessa trajetória, a trupe tem acumulado reconhecimento em todo o mundo, sobretudo na Europa, por inserir elementos da dança de rua no patamar da arte contemporânea.
Bruno teve contato com o hip hop desde os 13 anos por frequentar uma boate do gênero na cidade fluminense. Aos 20, ele decidiu cursar Dança e, durante os dois anos do curso inconcluso, fomentou o desejo de abordar e questionar a técnica de rua.
Juntamente com Rodrigo, ele teve contato em 1994 com o professor de dança Yoran Zsabo - israelense radicado em Nova Iorque. “Já era um hip hop de academia, absolutamente transformado e adaptado para aquele tipo de métrica que a academia impõe – coisa que não existe na prática informal, em que um aprende com o outroâ€, relembra o diretor de H3.
Hoje o Grupo de Rua é composto por nove bailarinos, dos quais quatro são de Belém do Pará, um é de Niterói e os outros são cariocas. A maioria deles tem uma relação direta com a dança de rua na sua raiz informal. “Quase todos vem de família de baixa renda, dificuldade econômica, dificuldade com relação a praticamente a tudo. A escolaridade também é baixa mas, em termos de dança, são feras no que fazemâ€, comenta Bruno.
“H3†estreou em maio de 2008 e já cumpriu 120 apresentações em todo o mundo.

Ingressos Disponíveis
Data: 27 de junho
Horário: 20h30
Local: Teatro Ouro Verde
Duração: 50 minutos
Classificação: Dança
Faica Etária: Livre

Ficha técnica:
Direção e coreografia: Bruno Beltrão
Produção executiva: Mariana Beltrão
Diretor assistente: Ugo Alexandre Neves
Bailarinos: Bruno Duarte, Bruno Williams, Charlie Felix, Danilo Pereira, Eduardo Hermanson, Filipi de Moraes, Kristiano Gonçalves, Luiz Claudio Souza e Thiago Almeida.
Desenho de luz: Renato Machado
Desenho de palco: Gualter Pupo
Figurino: Marcelo Sommer
Música: Lucas Marcier e Rodrigo Marçal – Arpx
Administração: João Marcos Beltrão
Produção: Gabriela Weeks

Serviço:
FILO 2010 – Festival Internacional de Londrina – De 10 a 27 de junho.
Realização: Àmen (Associação dos Amigos da Educação e Cultura Norte do Paraná) e Universidade Estadual de Londrina (UEL). Patrocínio: Petrobras, Prefeitura de Londrina, FUNARTE, Caixa Econômica Federal, Copel/Governo do Estado do Paraná, Governo Federal - Ministério do Turismo, Ministério da Cultura / Lei de Incentivo à Cultura. Ingressos: À venda no Royal Plaza Shopping (Rua Mato Grosso, 310) – ponto exclusivo. Bilheteria: (43) 3344-6197
Informações: (43) 3324-9202

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