A Vila Espaço das Artes / Teatro FILO recebe o espetáculo MOLOCH- Testemunha: Allen Guinsberg, com o ator Frances François Kahn.
François Kanh se apresenta amanhã, (10 – quinta-feira), às 20h30. A apresentação é uma promoção da Divisão de Artes Cênicas da Casa de Cultura da UEL
Moloch/Testemunha:Allen Ginsberg é uma adaptação de Kanh ,a partir dos atos do “Processo dos Sete e Chicago” e do ensaio “Uma solidão pública” de Fernanda Pivano.
Entre 1969 e 1970 realizou-se nos Estados Unidos o processo contra “os Sete de Chicago”, expoentes de uma galáxia de movimentos que ia dos hippie aos Panteras negras, responsáveis por haver organizado uma manifestação pela “preservação do planeta” e contra a guerra no Vietnã, o que resultou em conflitos duros e ataques ferozes da policia. Em linha com a cultura do tempo, o rito judiciário logo se transformou num paradoxal happening, com por exemplo um dos acusados vestido de índio, um outro que se declarava oficialmente cidadão da “Woodstock Nation”, e um ultimo amarrado e amordaçado por ordem do juiz.
Em dezembro de 1969 foi chamado a depor, como testemunha da defesa, o poeta Allen Ginsberg, a voz mais forte e famosa da beat generation. No contrainterrogatório, a procuradoria pública tenta de todos os modos desacreditá-lo, ridicularizando as suas práticas religiosas hinduístas e induzindo suspeitas sobre suas relações com a droga e a homossexualidade. Mas Ginsberg, quando convidado a ler seus textos sob acusa, inverteu pontualmente as insinuações até calar a aula, deixando o público todo em pé, comovido, enquanto recita os fragmentos mais significativos de Uivo.
É possível, com um material tão anômalo, trama singular de mantra, reflexões poéticas e inquisição processual, recolhidos então num pequeno livro por uma observadora de exceção, Fernanda Pivano, tentar construir um espetáculo?
O fez, e com resultado surpreendente, François Kahn. Para denunciar intolerância e repressão se poderia, claro, ter enfrentado situações bem mais trágicas e emblemáticas. O próprio processo, no fundo, foi um inútil psicodrama, anulado poucos dias depois por vício de forma. No entanto Moloch, próprio na sua atipicidade, abre uma extraordinária brecha de época, oferece um olhar intenso sobre o que Ginsberg definiu como ” consciência psicodélica”, nos permite enquadrar uma das mais inquietas inteligências do nosso tempo através de uma perspectiva tão singular. Sobretudo o próprio andamento do interrogatório assume uma cadência potentemente teatral, em um crescer de tensões que culmina nas palavras de Uivo, capaz – num tal contexto – de deixar o espectador dos dias de hoje emocionado e silencioso, assim como ficaram trinta e dois anos atrás os freqüentadores do tribunal de Chicago.(Renato Palazzi – IL SOLE 24 ORE – 22.IV.2001)
Glossário
Beat : Foi Jack Kerouac que utilizou a palavra beat, que se referia à batida rítmica no jazz, para definir uma nova maneira de escrever e por extensão um grupo de escritores: a beat generation.
Bezendrina: Nome comercial de um remédio a base de anfetamina.
Hip: Adjetivo usado com admiração para descrever pessoas ou coisas “ao passo com os tempos”, na moda, no certo, em contraste com quem é careta ou retrógrado, square.
Hippie: Membro do movimento de contracultura que nasceu nos USA nos anos 60, também conhecido como os filhos das flores. Em reação ao conformismo burguês dos anos do pós-guerra, uma larga fatia dos jovens americanos adotaram uma filosofia e um estilo de vida inspirado nos princípios ecológicos, pacifistas e libertários. A música rock, os blue-jeans e um comportamento desinibido em relação à sexualidade foram identificados como o estilo de vida hippie. O uso de substâncias alucinógenas e a prática da desobediência civil ( nos casos de conflitos de consciência ou de oposição ideológica) pintou os hippies sob uma luz negativa aos olhos do poder.
L.S.D: Dietilamida do ácido lisérgico. Substância alucinógena sintetizada em 1938 e difundida por Timothy Leary.
Moloch (Moloc): Deus cananeo do fogo, pelo qual os pais queimavam as próprias crianças como sacrifício propiciatório. “Não darás nenhum de teus filhos para fazê-los passar pelo fogo em honra de Moloc.” Levitico 18. 21.
Allen Ginsberg nasceu em Paterson, New Jersey,em 1926 e morreu em New York em 1997. Poeta estadunidense entre os maiores protagonistas da beat generation. A sua formação foi marcada, na origem, pela personalidade do pai, poeta e professor, e pela a da mãe, judia russa e comunista militante, destruída pela doença mental e pelos tratamentos psiquiátricos. Mais tarde, em New York, encontrou Jack Kerouac, que o introduziu no jazz, e William Burroughs, que o guiou na experiência visionária das drogas. Em 1949, o encontro em um hospital psiquiátrico com o poeta Carl Solomon (a quem dedicará Uivo em 1956) o confirmou na sua escolha social da marginalidade como ato de protesto contra o Moloch do capitalismo americano e de mística comunhão com os indigentes, os novos santos da América subterrânea. A poesia Kaddish (1960) escrita em memória da mãe, é a narração, modulada nos ritmos da oração hebraica aos mortos, da relação entre mãe e filho, divididos pela loucura, e conciliados enfim na palavra. As viagens à Índia e ao Japão, o aprofundamento do pensamento budista e zen marcam os sucessivos itinerários de Allen Ginsberg: do compromisso público do profeta da paz, Noticias do planeta (1968), até a desilusão de A queda da América (1972) e a nova fase sobre o tema da música, Primeiros blues, rags, baladas e cantos com o armonium (1975) e da meditação, Respirações mentais (1977).
François Kahn nasce na França em 1949, estuda biologia na Universidade de Nantes. Faz parte do Grupo “Théâtre de l’Expérience” em Paris de 1972 até a criação coletiva “Le Golem” em 1975. No mesmo período, encontra Jerzy Grotowski e em seguida participa como guia de vários projetos para-teatrais do Teatr Laboratorium dirigido por Jerzy Grotowski a Wroclaw (Polônia), até 1981. Faz parte do “Gruppo Internazionale l’Avventura” de Volterra (Itália) de 1986 à 1985 e participa da direção e criação de vários ateliers organizado pelo grupo: Viae – Actions dans la ville – L’atelier.
Em 1986 volta a dedicar-se ao teatro como ator e diretor. De 1982 a 1996 participa como ator e dramaturgo dos espetáculos ( em particular a Trilogia: “Laggiù soffia” – “Era” – “In carne e ossa”) de Roberto Bacci, diretor do Centro per la Sperimentazione e la Ricerca Teatrale de Pontedera. No mesmo período dirige os espetáculos “Quentin”, “Rahel”, “Primo Amore” e “Alice”.
Em 1991 começa a sua colaboração artística com Humberto Brevilheri. A Partir de 1995 cria o projeto TEATROdaCAMERA no qual atua como ator em espetáculos baseados em textos literários (Marcel Proust – Gérard de Nerval – Franz Kafka). Em 1998, convidado por Cesare Lievi, diretor do Centro Teatrale Bresciano, cria dois espetáculos: “Il Sogno e la vita” ( baseado na obra de E.T.A Hoffmann) e “O Marinheiro” (de Fernando Pessoa).
Em 1999 se estabelece em Cremona onde prossegue o projeto TEATROdaCAMERA com os espetáculos “Moloch / testemunha: Allen Ginsberg”, “La Marchesa di O.” de Heinrich von Kleist e “Viagem a Izu” de Kawabata Yusunari. Em Cremona, junto com Humberto Brevilheri e Anne Zenour, é diretor artístico do Espaço de trabalho Dedalus.
Atualmente vive em Paris onde funda a associação Odradek Theatre. Enquanto autor, ator e diretor, cria em maio de 2009, no âmbito do Festival Fabbrica Europa de Florença, o espetáculo “Les Dormeurs”, segundo Walt Whitman e, em março 2010 na França, o espetáculo “Nuisibles” segundo Jean-Loup Trassard. Em 2011 prossegue o projeto TEATROdaCAMERA com a criação do monólogo “Musica Lontana” baseado no conto “Os mortos” de James Joyce.
Desde 1986 desenvolve paralelamente à criação de espetáculos um intenso trabalho pedagógico, dirigindo vários laboratórios e oficinas que resultam na realização e apresentação de um espetáculo teatral. Dessa maneira tem colaborado com a Scuola d’Arte Drammatica Paolo Grassi de Milão e Scuola Nico Pepe de Udine, o C.R.S.T de Pontedera e a Accademia dei Filodrammatici de Milão. Visita regularmente o Brasil, associando apresentações de espetáculos em português( Josefine, a cantora – O Relatório – A vista de Delft) com as oficinas para jovens atores, em Londrina, São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Diamantina e Ouro Preto.
SERVIÇO:
O que: Espetáculo: “Moloch / Testemunha: Allen Guinsberg”, com François Kahn
Direção: François Kahn
Quando: 10/11 (quinta-feira)
Onde: Espaço das Artes / Teatro FILO
Horário: 20h30
Ingresso: R$ 10,00 e R$ 5,00 (estudantes e professores de quaisquer instituições e servidores da UEL).
Venda antecipada: Divisão de Artes Cênicas da Casa de Cultura;
Av. Duque de Caxias, 3391 (a partir do dia 07/11),
Bilheteria do Teatro (somente no dia da apresentação do espetáculo, a partir das 18:00h).
Maiores informações na Divisão de Artes Cênicas –
Fone: (43) 3322 1030